quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Apareceu a luz no fim do túnel?

Economia e Infra-Estrutura
Silvia Santos

CriseSe nos guiarmos pelos dados da imprensa, da mídia em geral e particularmente da Globo, a luz já apareceu. O Mundo superou ou entrou em franca recuperação, e o Brasil quase não sofreu com a crise da economia mundial. Como evidentemente não estamos no mesmo momento da crise aguda de 2008-2009, temos que precisar em que momento estamos e sua dinâmica. Mas não podemos analisar o Brasil sem considerar a economia mundial e, sobretudo, a norte-americana.

O Republicano Paul Craig Roberts, crítico da política do novo governo dos EUA por apostar na ampliação do crédito e da dívida, analisa a situação do seu país e alerta sobre a nova bolha que estaria em gestação. E denuncia que a mídia facilita "a capacidade da oligarquia financeira de iludir o povo". Acredita que, enquanto se anuncia uma recuperação, o desemprego cresce, e atribui à relocalização das empresas em países com mão de obra mais barata os quase 20% de desempregados que existem nos EUA, nada menos que um quinto da força de trabalho, se se evitam as falsas informações do governo que não considera aqueles que deixam de procurar emprego ou a mão de obra de trabalhadores norte-americanos substituída por trabalhadores temporários estrangeiros. Por outro lado, informa que o salário declinou na última década no seu país. Sua conclusão é que os trilhões dados aos bancos foram despejados no mercado de ações e na compra de bancos pequenos, estimulando uma maior concentração e preparando o estouro de outra bolha.

Com conclusões similares, o Presidente do Morgan Stanley analisa a "maior injeção de liquidez da história moderna", denunciando que o "início da recuperação é tudo o que interessa aos investidores", os quais apostam no mercado de ações atrás do sonho de uma recuperação rápida. Da mesma forma, considera que medidas de estímulo como os subsídios para trocar carros por modelos zero nos EUA ou subsídios para a construção de estradas na China acarretam risco de agravar desequilíbrios, uma vez que não se aceita medidas globais como a construção de uma nova arquitetura financeira mundial. Claro que este senhor não analisa que a lógica do capital é a de conseguir lucros rápidos e se salvar, e não a de evitar "agravar desequilíbrios".

O próprio Banco Central dos Bancos Centrais (Banco de pagamentos internacionais) assinalou em seu informe que existe o risco de que estourem outras bolhas financeiras mais graves, visto que, por exemplo, o mercado especulativo com derivativos está aumentando e que as medidas de estímulo adotadas pelo governo para socorrer a economia no curto prazo pode semear o caminho para crises futuras. Destacando também que a "ajuda" recebida pelos bancos foi para comprar bancos menores e especular com títulos e ações nas bolsas. O Diretor do Instituto de Investigação de Tendências Gerald Celente anunciou que se avizinha a "mãe de todas as bolhas", que seria provocada pelo pacote de estímulos que definiu da seguinte forma: "Dólares fantasmagóricos impressos em ar inconsistente, respaldados por nada e produzindo quase nada". Sem deixar de considerar que algumas dessas opiniões provêm de opositores a Obama, seus elementos de análises tem força real.

Por isso, podemos definir que pode haver conjunturas de superação da crise aguda, retomadas da economia, mas parciais e temporárias, pois a crise da economia mundial tem sido muito forte. E não podemos analisá-la separada da crise crônica da economia mundial capitalista. É neste marco que devemos nos deter na situação do Brasil que, ao que tudo indica, começaria a sair da recessão

A crise no Brasil não se expressou com a mesma força que nos países imperialistas, ou como no México, que através do Nafta tem uma relação simbiótica com a economia norte-americana. Os Bancos brasileiros, graças à extraordinária taxa de juros, não tinham como eixo a especulação via derivativos, mas obtinham seus gordos lucros com os títulos do governo, razão pela qual não afundaram como nos EUA com a inadimplência dos proprietários de casas e imóveis. Seu mercado interno é grande e na composição de seu PIB as exportações ocupam 13%, enquanto em países como a China ocupa em torno de 40%. Mas se esses fatores podem ter atenuado a crise, ela existiu e existe, e sua resolução depende tanto da luta de classes nacional quanto internacional. Vejamos alguns indicadores:

- A arrecadação está em queda há 11 meses, sendo que de janeiro a setembro deste ano a queda foi de 7,8%. Esta queda tem a ver com a crise e com a renuncia fiscal como consequência também da crise. Isso fez com que o governo reduzisse a meta de superávit primário, ameaçasse com não devolver parte do IR deste ano; mas as consequências estão sendo sentidas em estados e municípios assim como em áreas como saúde e educação, que tiveram orçamentos reduzidos. Outra fonte de receita para o governo são os dividendos das empresas e bancos estatais, sendo que o lucro dos bancos públicos, por lei, só pode ser usado para pagar dívida publica. Isto levou a que os Bancos do Estado transfiram valores depositados para cobrança judicial que está sendo questionados na justiça - em torno de 5 bilhões de reais - para equilibrar a arrecadação, valores que caso o Estado perca terão que ser devolvidos.

- Na indústria, a Folha SP transmite que foi um tombo histórico, que não se via desde 1975. A produção industrial brasileira despencou 13,4% entre janeiro e junho deste ano, no pior primeiro semestre em 34 anos. No primeiro semestre, porém, dos 27 setores pesquisados, 24 registraram recuo e nem mesmo os segmentos beneficiados com medidas anticrise conseguiram evitar números negativos. Os únicos três setores da indústria que registraram expansão no primeiro semestre foram farmacêutico (10,3%), equipamentos de transporte (14%) e bebidas (5,2%).

- A indústria automotiva, que teve redução de IPI, teve em setembro a 12ª queda consecutiva na produção, sendo que nos primeiros meses do ano existem dados diferentes: para alguns a retração foi de 11,5%, para outros, de 23,6%

- Os índices de desemprego, segundo fontes oficiais se mantêm entre 8,4 e 9%, tendo aumentado 0,5 pontos porcentuais desde a crise. Mas sabemos que esses números não refletem a realidade, pois deixam de considerar aqueles que não procuram mais emprego, desestimulados pelas dificuldades.

-Sobre a recuperação dos empregos, que tanto alardeia o ministro de Trabalho, o próprio presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), que considera que o ajuste no mercado de trabalho está chegando ao fim, admite que "a qualidade das vagas criadas deixou a desejar". "As únicas vagas criadas em agosto vieram do setor público", destacou o presidente da CNI. O que significa que grande número dos recém contratados aceitou trabalhar sem carteira assinada ou está atuando por conta própria no mercado informal.

Ilustrando essa situação, a FSP publicou que para disputar uma das 1.400 vagas para gari no Rio, com direito a salário de 486,00 reais, fora tíquete alimentação, vale-transporte e plano de saúde, foram se inscrever 109.193 pessoas, dos quais 45 doutores, 22 mestres, 1.026 com nível superior completo e 3.180 incompleto.

- A alta nas bolsas e do lucro dos bancos, assim como a manutenção da taxa de juros em 8,75%, expressa bem que o setor financeiro continua sendo o privilegiado. E também no Brasil, como está sendo na economia mundial, os grandes bancos, que receberam bilhões e até trilhões, aproveitam a crise para engolir os menores e para continuar com a farra especulativa em torno das aplicações em bolsa e na compra de títulos. O governo precisa fechar as contas publicas e para isso apela aos "investidores" lançando títulos. A re-implantação do IOF, com alíquota de 2%, acaba sendo inócua visto que existem formas de driblar o mecanismo e disfarçar a especulação, comprando ações de empresas brasileiras listadas na bolsa de NY ou títulos da dívida publica emitidos no exterior. Assim como foi considerada uma medida positiva ainda que limitada pelos exportadores, o setor rentista insiste em que para fechar as contas publicas é necessário um ajuste fiscal, reduzindo as despesas do Estado. Coisa que Lula não fará da maneira necessária em ano eleitoral e está empurrando com a barriga para o colo de Dilma/Serra, dependendo quem seja o vencedor do pleito.

As reservas cambiais do país chegaram a U$S 225 bilhões e continuarão aumentando, enquanto prossiga o afluxo de capitais ao país para enxugar os dólares que sobrevalorizam o real e prejudicam os exportadores. A maioria (70%) desses títulos está aplicada em títulos do governo dos EUA, que pagam juros quase iguais a zero, enquanto os títulos usados para comprar esses dólares pagam a fabulosa quantia de 8,75% ao ano, sendo o melhor negócio do mundo e o que explica a "conquista" do grau de investimento, ou seja, um atestado de segurança de que o Brasil atende muito bem os interesses da oligarquia financeira. Este mecanismo, finalmente, não faz outra coisa a não ser aumentar fabulosamente a dívida publica do país.

A crise social, o aumento da violência nas grandes capitais, sobretudo no RJ, são expressão desse agravamento da crise global, que seguirá se manifestando e aprofundando sem que as recuperações parciais e transitórias, ao ritmo da crise da economia mundial, consigam amenizá-las e menos ainda solucioná-las. A crise social se agravou no governo Lula e se estendeu pelo país. Belém com aumento da criminalidade; situação de revolta nas favelas de SP, aumento da criminalidade em cidades como Porto Alegre são expressão desse agravamento, com mais pessoas fora do mercado de trabalho, com quase nenhuma cobertura de saúde, haja vista a crise da saúde pública, fora a escola, que também se converteu em local de assaltos, tráfico e violência entre alunos e até contra professores.

Estes dados são ilustrativos sobre quem está pagando pela crise e quem está se beneficiando no Brasil do Lula.

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