sábado, 3 de julho de 2010

FIM DE UMA ERA SOMBRIA QUE NÃO DEIXARÁ SAUDADE


Acabou mal a nova Era Dunga da seleção brasileira. Tempo que se caracterizou pelo desequilíbrio e destempero de um aprendiz de técnico que, alçado ao posto máximo da categoria no país pentacampeão do mundo, se convenceu (ou foi convencido) de que poderia alcançar tudo no futebol, tendo como principal estratégia distribuir patadas e xingamentos a torto e a direito — exatamente como fazia quando ainda era jogador e capitão, na vitoriosa Copa de 94.

Os alvos principais? Jornalistas e torcedores — “remember” as inúmeras grosserias, em entrevistas, e os gestos obscenos e os palavrões, para a torcida, em diversas ocasiões, a última e mais flagrante na partida com o Chile, em Salvador.
Durante esses últimos quatro anos sobrou até para o presidente Lula (que elogiou a Argentina e Lionel Messi, após os Jogos de Pequim) e para treinadores, jogadores e dirigentes que ousaram sugerir algo ou discordar de alguma de suas muitas convocações esdrúxulas.
Seus maus bofes, entretanto, eram sempre minimizados e, de certa forma, compensados pelos bons resultados (muitos deles frutos de considerável dose de sorte). E, entre um percalço aqui, outro acolá, Dunga foi se mantendo — e se fortalecendo.
De virtualmente demitido, no final de 2008 (salvo por uma goleada num amistoso contra Portugal, em Brasília), acabou tornando-se intocável após a conquista da Copa das Confederações (onde a fortuna o bafejou, novamente) e a classificação antecipada nas eliminatórias.
A convocação final para a África do Sul, entretanto, deixou claro que a comissão técnica eleita pela CBF (leia-se o treinador e seu enfurecido auxiliar, Jorginho) não aprendera nada durante todo esse tempo.
Mesmo com Kaká em péssima forma (como evidenciava sua má temporada no Real Madrid), a opção foi pelo “grupo fechado” e a lista definitiva ignorou o clamor popular pelos garotos Ganso e Neymar, do Santos, e até por Ronaldinho Gaúcho, que poderia ser, no mínimo, um bom reserva para o meio-campo.
Em seus lugares, vieram nulidades que o próprio Dunga desprezaria, durante o Mundial — como Kléberson e Grafite, preteridos até quando os titulares acabaram substituídos por jogadores de outras posições ou com outras características.
A sorte, entretanto, ainda parecia de seu lado. Mesmo com atuações pífias (contra a ridícula Coreia do Norte, que acabaria na lanterna da Copa, e diante de Portugal, quando acabou o jogo dominado), a seleção se classificou em primeiro do grupo e, diante de um velho freguês de caderno, o Chile, chegou a empolgar alguns incautos.
Veio, então, o primeiro teste de verdade; o primeiro jogo pra valer, na África do Sul. E aí nem a boa fortuna foi capaz de salvá-lo.
Ao contrário, como um castigo, pareceu abandonar o técnico no seu pior momento, como uma espécie de compensação cruel por tudo que já lhe dera antes.

Com um primeiro tempo excelente (o melhor nesta Copa), o Brasil poderia até ter liquidado a Holanda e garantido a vaga em 45 minutos — quando, além de dois gols de Robinho (um anulado, por impedimento milimétrico), pelo menos mais três grandes oportunidades foram desperdiçadas, em conclusões de Juan, Kaká e Maicon.

O destino não quis e, após o intervalo, numa cruel ironia, uma das maiores e mais contestadas apostas de Dunga tratou de enterrá-lo: o temperamental e desequilibrado Felipe Melo.

Inicialmente, o volante atrapalhou Júlio César (que também saiu mal), no lance do primeiro gol. Depois, agrediu Robben (com dois pontapés e um pisão criminoso), sendo corretamente expulso e exterminando de vez qualquer possibilidade de reação do Brasil.

Merecíamos melhor sorte? Talvez. Mas, decididamente, não devemos sentir saudades de uma era em que alguns dos nossos maiores craques foram ignorados pela seleção, outros manietados e amordaçados e o time isolado, como nunca.

Ah, ia me esquecendo do mais importante: passamos, também, a praticar um joguinho chinfrim, sem graça nem talento, apenas na base de contra-ataque, sob a falácia de que o que interessa é o resultado — e não a consagrada história e a aplaudida e mundialmente reconhecida arte do nosso futebol.

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